A FAMILIA E O TERAPEUTA

 

 

No início dos tempos modernos, a família deixou de ser apenas uma instituição para transmissão dos bens e do nome, para assumir a função educadora de formar os corpos e as almas de seus filhos, preparando-os para a vida.

A transformação da família através do tempo é conseqüência do contínuo processo de evolução. Nos dias atuais, essa evolução é sentida num ritmo muito rápido, e a família procura se adaptar a essas transformações.

No entanto, as mudanças dos padrões familiares são determinadas não só pelo meio, mas também por sua organização interna. De acordo com Ackerman (1986, p. 31), “A unidade psicológica da família é continuamente moldada pelas condições externas e por sua organização interna”.

Uma mudança nos padrões internos, decorrente das mudanças sociais, pode fortalecer ou enfraquecer as ligações de amor e de lealdade dentro da família.

Atualmente, a estrutura econômica do casal inclui a necessidade de dois salários e duas carreiras, levando ambos os pais a trabalharem em tempo integral, fazendo com que haja uma disputa quanto à divisão das tarefas domésticas e disposição das responsabilidades e cuidados com a criança. Enquanto somente o pai trabalhava e conseguia sozinho manter a família, a mulher ficava em casa com a responsabilidade da educação dos filhos. Com a mudança do papel feminino e a partir de sua entrada no mercado de trabalho, pai e mãe delegaram a educação de seus filhos à escola ou às babás, transformando a dinâmica familiar e alterando as funções da família.

É dentro da família que a criança terá suas primeiras trocas de experiências, conhecerá seus primeiros sucessos e fracassos, medos e frustrações. A família é, portanto, a unidade básica de crescimento do ser humano. É dela a tarefa crucial de socializar a criança e desenvolver a sua personalidade, configurando o seu percurso intelectual, emocional e social.

Inicialmente, no processo de socialização, a família modela o comportamento e a identidade da criança. Além do fornecimento de abrigo, alimento e proteção à criança, garantindo assim a sua sobrevivência, a família favorecerá o desenvolvimento dos papéis sociais e a aceitação da responsabilidade social. É nessa família, sob condições de unidade e cooperação, que a criança desenvolverá o conceito de aprendizagem, a iniciativa e a criatividade. O senso de identidade pessoal da criança está relacionado à sua identidade familiar.

Dentro da família, são inúmeras as correntes de sentimentos de todos os graus de intensidade e são essas correntes que definirão a atmosfera familiar, em que a personalidade e as reações sociais da criança se desenvolverão. A atmosfera familiar vai depender da maneira como os pais demonstram amor um pelo outro e pelos filhos. Quando os pais se amam, os filhos também os amarão.

Winnicott (1980) afirma que o desenvolvimento emocional do primeiro ano de vida determinará a base da saúde mental do indivíduo. Segundo ele, a criança tem uma tendência inata para crescer, mas esse crescimento depende do atendimento de suas necessidades básicas, tarefa que será melhor desempenhada pela mãe, pois esta é a pessoa que mais provavelmente se dedicará à causa naturalmente e com prazer. É a maternagem satisfatória. Quando a criança necessita de atendimento terapêutico é importante que a família compreenda o que a criança está passando, para que possa ajudá-la a enfrentar e a superar suas dificuldades. Pais que superprotegem os filhos, fazendo-os acreditar que são incapazes de realizar as tarefas e criando uma relação de dependência, podem estar causando ou reforçando as dificuldades da criança.

A ligação que deverá existir entre o terapeuta, o paciente e a sua família é intensa, atingindo todos os seus membros, individualmente, e a vida familiar, como um todo.

Igualmente importante é a família conhecer os objetivos do profissional que está trabalhando com a criança e, juntos, estabelecerem uma parceria, em que todos irão lutar pelos mesmos objetivos, ou seja, o desenvolvimento da criança.

É com essa mútua confiança e com a certeza de que as partes envolvidas – profissionais família e criança – estejam comprometidas com o trabalho que se estabelecerá o vínculo, essencial ao sucesso da terapia.

ACKERMAN, N. W. (1986). Diagnóstico e tratamento das relações familiares. Porto Alegre: Artes Médicas.

WINNICOTT, D. W. (1980). A família e o desenvolvimento do indivíduo. Belo Horizonte: Interlivros.

Entrevista 21_3_2007 (58)Sessão 25_4_2007 (1)